Comida, desperdício e a humanidade de quem tem fome

Comecei a trabalhar aos dezoito anos. Não que eu precisasse – sempre tive comida na mesa –, mas achei que era hora.

Ao lado da escola na qual eu dava aulas tinha uma Lojas Americanas que expunha, na entrada, um castelinho de caixas de bombons. Sentado na calçada, à frente do degrau que desnivelava a loja do chão, sempre estava um moço.
Foi logo no meu primeiro dia de trabalho que ele me pediu uma caixa de chocolates daquelas – e achei curioso que ele estivesse pedindo por comida, e não por dinheiro, assim como que quisesse chocolates e não um prato de sustança. Mamãe me ensinou que uns trocados podem não ajudar, mas que a gente sempre deve pagar a comida de quem pede por ela. E foram sete reais do meu primeiro salário na caixa da Nestlé.

Eu não trabalhava todos os dias mas, em quase todos os que trabalhava, a rotina se repetia. Algo na fala dele me irritava: “ô, moça, eu sei que eu não sou gente…”. E um dia fiquei tão brava que me atrasei pra aula: “moço, é o seguinte: se você continuar dizendo que não é gente, eu não compro mais comida pra você. Por que é que raios você acha que não é gente?”

Não vou falar que eu não predisse a resposta, que eu não esperasse por ela, mas acreditava que, ainda assim, era importante sentar pra ouvir. Naquele dia conversamos por uns quinze minutos – ele me contou sua trajetória de ex-presidiário que, agora, era expulso do Poupatempo toda vez que tentava tirar um documento pra pedir por emprego.
Não questionei as suas razões de ser preso, mas os motivos da escolha por chocolates. Ele me disse que a lanchonete em frente dava um salgado por dia, mas que ele era chocólatra e sentia muita falta do doce.

Tenho aqui pra mim, com os meus botões, que era o doce que lhe fazia gente. O alimento é sobrevivência, mas só existimos como ser pulsante quando temos vontade, quando temos desejo.

Não pude deixar de lembrar dele quando li a matéria que o Jader me mandou sobre o Fernando, um empresário de Goiânia que criou algo interessante.

Projeto Geladeira Solidária

Agora, a Rua Sete do centro da cidade tem uma geladeira comunitária da qual as pessoas que estão com fome e não podem comprar comida tiram sua sobrevivência. Elas são, em maioria, moradores de rua e usuários de drogas.
O Fernando não tá fazendo isso sozinho: quem não tem, pega, e quem tem, passa por lá pra abastecer. Os alimentos devem ser colocados embalados e com a data de fabricação exposta e é proibido colocar alimentos vencidos, embalagens abertas, bebidas alcoolicas, ovos e carnes. As regras foram implementadas pra garantir a segurança de quem come.

E é justamente a segurança que é alegada por muitos outros comerciantes como o motivo pra não ajudar, não só em Goiânia, mas em São Paulo e qualquer outra cidade.

Quantas vezes já não vimos pessoas que trabalham em estabelecimentos de comida negarem um prato, um suco ou um salgado a um morador de rua, ainda que o que sobre da produção diária seja uma grande quantidade de comida boa? Quantas vezes já não ouvimos que fazem isso porque, caso a pessoa passe mal depois de ingerí-la, pode processar o comerciante? Ora, ora, mas que desculpinha… Quantas vezes você já viu um morador de rua processar alguém?

E sobra comida aos montes por aí

A ONU divulgou, em agosto desse ano, um dado que diz que 1,3 bilhão de toneladas de comida é desperdiçado anualmente. Isso corresponde a um terço dos alimentos produzidos pra consumo.

Só no Brasil, 35% da produção agrícola se perde no caminho e as famílias desperdiçam, em média, 20% do que compram em uma semana. É a bolacha que amoleceu porque o pacote ficou aberto, o requeijão que azedou porque um pote é demais pra duas pessoas, o arroz e feijão que foram medidos em excesso. No mercado, o tomate patinho feio da seleção de legumes (se for de São Paulo, sugiro que vá ao CEAGESP ou ao centro da cidade dar uma olhada na quantidade de comida que fica pelo chão).
Impossível ignorarmos, aqui, a influência do modo de consumo embalado nesse desperdício todo. Se eu quero comprar pão de forma, vou até um supermercado de grande rede e só consigo comprar 76455 fatias de uma vez que, em uma semana, vão estragar. No lixo vão as fatias mofadas, o meu dinheiro, o meu tempo e a chance de sucesso de um pequeno empreendedor, que quer vender a granel, diminuir o uso de embalagens plásticas e lucrar justo.

A questão é bem complexa e passa pela redistribuição de recursos no mundo, mas o que sabemos hoje é que 800 milhões de pessoas ainda não têm o suficiente pra sobreviver.

Então, enquanto pudermos encher geladeiras comunitárias, vamos fazê-lo, e se pudermos comprar o chocolate que dará a alguém o lastro de gente, pulsante, com desejos, melhor ainda.

Marcela Campos
Créditos da Imagem: Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Um comentário sobre “Comida, desperdício e a humanidade de quem tem fome

  1. Poxa vida! Quantas tortas de maçãs eu não faria com todas estas que estão jogada neste lixo! Mataria a fome de algumas pessoas, com certeza. Amei a ideia da geladeira em praça pública para os que necessitam, a final, são desperdiçados tantos alimentos que daria para colocarmos este projeto em todas as cidades do Brazil, o que seria maravilhoso. Assim como você, eu também comecei a trabalhar aos meus 14 anos, só que, no meu caso era necessário, dar uma forcinha para minha querida mão. https://mariamestrecuca.wordpress.com/ Abs, Maria Sônia.

    Curtir

Os comentários estão desativados.