A terceirização da conversa

Eu amo a Internet. De verdade. Fui salvo por ela quando decidi sair do banco em que trabalhava para poder viver de escrita e até hoje ganho o meu cascalho dentro dela. Eu já namorei com a ajuda da Internet em uma época que ela não ajudava ninguém a namorar, uma coisa bate-papo e ICQ e foto escaneada, telefone e primeiro encontro meses depois. Era assim que ela tratava os nossos relacionamentos. E você aí, reclamando que o app lá de encontros não te dá match legal.

Amigos eu fiz com ela e leitores a danada me traz, de grão em grão, todas as semanas, bonitinha, sempre solícita. Eu não preciso mais ir ao banco por causa dela e tô comendo melhor porque ela está me trazendo, diariamente, informações bem boas sobre comida saudável.
A Internet é bem legal. Estão dizendo que ela é culpada por fazer, das pessoas, gente mais fria, botando ela como foco de todos estarem mais sozinhos e afastados uns dos outros. E nem é verdade, né.
“Ah, porque as pessoas não se falam mais no metrô, todo mundo sempre com fones no ouvido, telas na cara”
É óbvio que o vilão, neste caso, é o metrô, aquele transporte público barulhento em que você entra com o único desejo de sair, mais do que chegar no outro ponto desejado. Desde 1863, em Londres, essa bagaça serve para chacoalhar e botar gente insuportável do seu lado, inviabilizando qualquer conversa civilizada, uma aproximação decente de prosa gostosa, um leriado faminto.

Não tem aconchego.
Também não é isso, jamais será qualquer espaço público o culpado pelo afastamento humano, pelo contrário.

A tecnologia só fez com que terceirizássemos a nossa conversação. Ou melhor, nós que usurpamos os processos tecnológicos dentro da Internet para terceirizar nossa comunicação. Antes a gente lia os jornais nos trens para ficarmos informados e trocar ou confrontar esse conhecimento com outras pessoas, fossem elas conhecidas ou não. Mesmo um cara calado lendo as notícias no coletivo acabaria disparando suas leituras com outros, no jantar em casa ou com os amigos no final de semana, talvez até – pasmem – escrevendo algo que pudesse ser lido por outras pessoas.

Ele podia simplesmente ler e guardar pra ele? Claro! Podemos fazer isso mais nos dias de hoje? Certamente. Fazemos menos porque estamos conectados? Não.

Hoje falta a ação. Redes sociais são murais onde colocamos coisas que moldam que somos ou achamos que somos ou queremos ser. Atribuímos a elas muito mais do que deveríamos e acabamos nesse processo de ter, lá, o porto seguro para expormos a nós mesmos.

Você se senta para conversar com um amigo e todos os assuntos discutidos são cortados porque ele já os publicou em alguma das suas páginas. “É, eu coloquei algo sobre isso no meu Facebook esses dias. Sim, eu postei um link sobre isso também por esses dias. É! Eu coloquei uma foto disso lá esses dias”. O papo se esvai pelos dedos e enche a tela do celular, as concepções dele estão todas armazenadas em sua timeline, mas não na ponta da língua.

Não é questão de entendimento de texto, esperteza, eloquência ao conversar. Trata-se apenas de a pessoa depositar suas fichas lá, nas tais redes, sem ter o que querer acrescentar fora. Também não seria questão de separar vida online e offline, isso não existe mais e uma é complemento da outra. Mas uma certamente não precisa depender da outra.

Um casal está juntos há, sei lá, dez anos. Como no filme Pulp Fiction, eles chegaram no estágio em que não existe mais o silêncio desconfortável, conseguem passar longos minutos sem se falar e ver, nisso, desagrado. Natural, até bem saudável demais. Uma hora tem ele jogando videogame na sala e ela lendo alguma coisa na Internet, deitada no quarto. Eles precisam jantar e ela pergunta, em vez de gritar de um cômodo para o outro, o que ele pensa em comer. Ela faz isso via Skype ou mensagem de celular. Não é ruim, a ferramenta tá aí pra isso.

Certo dia eles percebem que a coisa não tá legal, o relacionamento tá frio, quase congelando. Nenhum deles pede pra transar mais, cada um compra seu café, dormem em horários bem diferentes e, quando juntos em algum momento do final de semana, trocam impressões sobre o filtro do aplicativo de foto um do outro. Ele decide fazer um lanche pra comerem juntos e conversar. Precisam entender o que tá afastando os dois. Você viu que o filho da Ana nasceu? Quem é Ana? A esposa do meu primo, João. Mas ela estava grávida? Tá sim. Você não me contou. Mas eu curti no Facebook. Achei que você tivesse visto.
Distração, falta de empatia, não saber que você vai morrer, falta de contato diário com o sofrimento. A lista é imensa. É muita responsabilidade pra uma Internet só.

Jader Pires
Créditos da Imagem: 3R Studio