Sobre fé, ciência e perguntas que não devem ser feitas

Eu devia ter uns nove anos quando, em uma aula de catequese, uma colega da mesma idade fez A Pergunta.  E, com a simplicidade das crianças, A Pergunta não foi dirigida à catequista, mas diretamente ao padre, figura para nós envolta de distância e respeito cerimoniosos.  Não sabíamos que não se faz A Pergunta a um padre; a maioria dos adultos que frequentam a igreja não se atreveria a formulá-la, e muitos dos que não frequentam não se dariam ao trabalho, acreditando já saber a resposta _ que como vai contra suas próprias crenças, não vale a pena ser ouvida.

Porém, éramos crianças de sorte. O padre na época era um homem inteligente e compreensivo. Quando a menina perguntou por que a Bíblia conta a história da origem do ser humano de um jeito e a ciência de outro, ele pacientemente explicou que as duas são linguagens distintas, que embora procurem as mesmas respostas, o fazem por caminhos diferentes, não necessariamente contraditórios, mas complementares. Que não se pode fazer ciência com a religião ou religião com a ciência.

Parecia ainda um pouco confuso para crianças de nove anos, e como era o dia das perguntas difíceis, alguém aproveitou para fazer uma das minhas questões favoritas até hoje: se Deus criou apenas Adão e Eva, e eles tiveram (inicialmente) apenas Caim e Abel, como é que, depois de ter matado Abel, Caim casou-se e teve filhos (Genesis, 4)? De onde veio essa mulher?

O padre então disse algo que marcaria minha imagem da religião para sempre: na verdade, por Adão e Eva, a Bíblia se referia a todo um povo, pois a linguagem da Bíblia é figurada, ela não pode ser tomada ao pé da letra.

Isso fez todo o sentido para mim. Se a Bíblia fala em linguagem figurada, então é claro que religião e ciência não eram contraditórias uma à outra. Como o padre disse, elas só estavam falando linguagens diferentes! Talvez nem sempre compreendamos o simbolismo da linguagem bíblica, talvez os textos façam mais sentido nos idiomas originais, mas eu não precisava abandonar minha religião por acreditar na ciência.

Essa revelação marcou minha relação com a religião para sempre. Sem ela, quando eu começasse a questionar a visão criacionista, provavelmente deixaria a Igreja de lado. Mas quando comecei a aprender sobre evolução, as duas ideias simplesmente se acomodaram confortavelmente uma ao lado da outra na minha mente. Assim, enquanto a maioria dos meus amigos se afastou da religião durante a faculdade ou até antes, eu continuo até hoje me declarando católica apostólica romana praticante, muito bem, obrigada, e indo à missa todo fim de semana.

Para mim a existência de simbolismo da linguagem religiosa era uma coisa tão simples e clara, que foi um verdadeiro choque quando descobri que os outros cristãos não pensavam assim. Ver alguém declarando que acreditava que literalmente o homem foi feito do barro e a mulher de sua costela foi parecido com ver um adulto esperando o coelhinho da Páscoa. Demorou para cair minha ficha de que sim, para muitos cristãos a Bíblia é literal. Inclusive para outros católicos. Inclusive é a crença predominante na Igreja, mesmo que haja segmentos que apoiem a ideia de que evolucionismo não é contrário à Bíblia. O padre que me explicou aquelas coisas na infância, aparentemente, tinha um pensamento bastante moderno para seu posto.

Isso me fez entrar em uma crise. Afinal, eu baseio minha fé em algo que vai contra a religião que sigo ou não? Ver a Bíblia como uma linguagem figurada é algum tipo de heresia, ou não?  Isso me afastou de participar mais ativamente da igreja, como de grupos de jovens ou de oração.

Para piorar, nos últimos anos parece que onde quer que se olhe se vê essa enxurrada de cristãos condenando homossexuais e praticantes de outras religiões, defendendo pena de morte e misturando religião com política. Achei que Jesus tinha dito pra gente amar aos outros como a nós mesmos, aprender a perdoar e não julgar ninguém. E lembra aquela parte em que todo mundo acha que Ele tinha vindo para liderar Israel e expulsar os romanos e ele diz “Meu reino não é deste mundo”? Pois é. As ações do Papa Francisco, receptivas à comunidade LGBT, e favoráveis às relações amigáveis entre religiões foram um dos poucos sopros de esperança para a minha fé nos últimos tempos.

Agora saiu essa de que no cada vez mais provável governo do Temer, o Ministro da Ciência e Tecnologia deve ser Marcos Pereira (PRB), um pastor licenciado da Igreja Universal. Choveram críticas e o indicado ao cargo já avisou que não mistura religião com ciência. Vou rezar para que realmente seja assim.

Apesar de tudo continuo indo à missa e rezando à noite. É assim que me aproximo de Deus. Às vezes peço que ele me perdoe se não entendo a Sua palavra. Às vezes peço que ele olhe pelos intolerantes. Eles não sabem o que fazem.

Juliana Skalski
Revisado por: Carlos Cavalcanti
Créditos da Imagem: D’Falco

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