Vai, entra no taxi e vai com Deus

Há quanto tempo já imaginávamos que isso aconteceria? A porta do carro aberta, o motor ligado, o rádio sintonizado em alguma estação de “ressaca amorosa”. As malas guardadas e o taxímetro rodando. As mãos dele tirando alguns fios de cabelos rebeldes do meu rosto. A promessa de um novo encontro. Um “até breve”. Qualquer coisa. O prenúncio de fim que tentamos evitar a todo o custo, até que se torna inevitável.

“Vai com deus”, ele me disse. Nós nunca acreditamos em deus. Fui à igreja apenas para as aulas de primeira comunhão, depois, nunca mais. Ele, nem isso. Minhas orações nunca foram atendidas, nem antes e nem agora. E, se fossem, eu já nem saberia o que pedir.

Ainda assim, aquela era a única coisa que podia ser dita: vá com deus, que a vida cuide de você. E mesmo que você não se lembre mais como se reza, que sempre tenha algum conforto. Alguma coisa. Alguém que lhe ouça ou que lhe ajude a se manter equilibrada. Sóbria. E que a sobriedade não seja um fardo.

Era isso: vá com deus! E que todo o resto fique para trás: as noites de bebedeira e as manhãs de ressaca. O gozo e o sexo. As pernas e os braços. Toda a paz e o inferno que das nossas risadas histéricas e dos nossos corpos suados e despidos.

“Será que só você não vê que é bem mais fácil se despir do que se despedir?”, penso. E nada disso importava mais, era só “vá com deus”, e que você encontre um caminho, mas se não encontrar, que esse – ou algum – deus siga com você.

Entre essa, e tantas outras estradas, sempre caímos em alguma rota que nos distancia definitivamente de algumas pessoas ou de alguns lugares. E nós já tínhamos tomado esse rumo muito antes de eu pensar em entrar naquele táxi. Muito antes. Por isso, em resposta, apenas sorri e entrei no táxi. Não tinha mais o que ser dito.

É claro que eu queria que todas as nossas loucuras se resolvessem, que as merdas parassem de feder, que a minha cabeça voltasse para o lugar. Sobretudo, queria passar pelo menos um maldito dia sem ceder a todas as vontades que tinham me deixado na bosta. Sem ceder à minha própria voracidade. Sem ser engolida por ela. Um dia de sobriedade, pelo menos. Só por hoje, só um dia. Entretanto, querer e acreditar não é necessariamente a mesma coisa. Às vezes existe um abismo imenso entre as duas. E eu queria e precisava, mas já não acreditava em mais nada. E era esse o abismo em que eu sempre caia.

A verdade é que nós havíamos visitado aquela mesma cena tantas e tantas vezes, que já sabíamos como tudo terminava. O cenário e os personagens podiam ser um pouco diferentes, mas o final era sempre igual. E acabava ali, com motor ligado, o rádio sintonizado em alguma estação de “ressaca amorosa”. As malas guardadas e o taxímetro rodando. As mãos dele tirando alguns fios de cabelos rebeldes do meu rosto. A promessa de um novo encontro. Um até breve. Qualquer coisa. Depois, adeus. Vá com deus, ou fique com ele, porque nós já não poderíamos mais nem ir e nem ficar.

Então, eu apenas sorri e entrei no carro.
E, naqueles segundos entre uma coisa e outra, pensei em tudo isso que estou lhe falando agora. Foi aí que, de repente, mesmo sabendo que as minha preces nunca foram atendidas, mesmo tendo me esquecido como se reza, e sem acreditar em nenhum tipo de deus, tive tempo de abrir o vidro da janela traseira, pouco depois do motorista dar a partida, e gritar:

“Fica com deus.”

Amanda Cipullo

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